Consumir para acabar com o vazio interior

Assim como em outros textos aqui da página, este não busca estabelecer um certo ou errado, nem pretende mostrar algo “que deva ser feito”. Este é apenas um relato pessoal, no qual se entende que cada ser tem uma vivência própria e diferentes formas de lidar com o mundo.

Pois bem, lá vamos nós. No último ano eu percebi que lidava com meu vazio comprando coisas. Não era um consumismo compulsivo, mas sim algo bem inocente, contido e ciente dos limites financeiros.

Nunca fui de comprar muito, mas a questão é que percebi que minhas compras estavam quase sempre associadas a um sentimento de vazio e melancolia, e isso me incomodou. Meu consumo quase sempre pôde ser definido como saudável, afinal sempre fui bastante atento aos limites financeiros e tive a sorte de conseguir me conter para nunca ultrapassá-los.

Mas me incomodou esta percepção de que eu consumia para tapar algum buraco da alma, e então eu quis ter outra perspectiva sobre a situação.

Os buracos da alma são impossíveis de serem tapados, faz parte da condição humana conviver com eles. Assim, eu não tinha a ilusão de querer erradicá-los, nem diminuí-los, queira apenas aprender sobre eles, e esse aprendizado também é eterno.

Utilizamos da várias coisas para preencher esse vazio interior: religião, trabalho, relacionamentos, álcool, Netflix, redes sociais, consumo e tantas outras coisas. E nada disso é errado, afinal viver e suportar a existência pode ser bastante doloroso.

Então, pensei como seria se no lugar de comprar eu simplesmente vivesse esse sofrimento do vazio. Não no sentido de “virar uma pessoa melhor” e todas essas coisas relacionadas que considero em parte como baboseiras. Mas simplesmente para entender um pouquinho o que passava no interior.

O resultado foi bem interessante. Cada vez que o vazio se intensificava, surgia a vontade de comprar algo que iria solucionar meus problemas, exatamente como pretende nos vender o discurso publicitário, e tomados de emoção, compramos. Mas e o que acontece a seguir? Não muda nada! (risos).

Eram coisas pequenas e bobas que eu queria comprar, um livro para me distrair, um CD, um casaco para substituir os meus velhos… Nada de extravagante ou absurdamente caro.

E eu não deixei de comprar nada! Apenas coloquei na cabeça que eu não serei transportado para um mundo mágico simplesmente por possuir um objeto. Essa ideia de posse é bastante interessante para ser pensada nessa situação de usar o consumo para preencher os vazios da alma, afinal a posse de qualquer coisa, de um alfinete a um diamante, dá uma sensação momentânea de poder, prestígio e prazer, que logo se dissipa quando nosso objeto torna-se tedioso, envelhece e aquele blá blá blá que vocês já sabem.

A grande questão é que talvez existam outras maneiras de lidar com o vazio, e que o consumo pode não ser a melhor delas.

Assim, com essa ideia na cabeça, tentei encarar o vazio mais de frente e sofrê-lo. Afinal, para parar de sofrer é necessário sofrer. Claro que tudo isso em um nível cotidiano, o mesmo não se aplica para os problemas grandes e de verdade que há por aí.

Assim, preferi comprar em dias em que não estivesse tão triste, priorizando a função e não o fim da minha tristeza. Foi bem interessante, e não, não sou uma pessoa melhor por conta disso, nem quero convencer ninguém de nada, estou apenas contando sem qualquer intenção de nada.

Mesmo assim, é interessante refletir sobre a questão psicológica do consumo, sobre o endividamento, e indo além, da desigualdade social que faz com que muitos sejam privados inclusive de participar do consumo. Aqui sim temos um problema de verdade.

Minimalismo: um convite para observar os abismos interiores

Aos poucos eu fui percebendo que minhas tristezas, angústias e decepções não passariam se eu comprasse alguma coisa para colocar no meu vazio. É algo clichê, sem genialidade alguma, mas que demora bastante para ser assimilado.

Conheci o minimalismo faz um bom tempo, e fui me conectando com ele de forma natural, sem me preocupar com o número de objetos que possuo, com a decoração ou com o meu visual. Fui encontrando o meu modo minimalista de ser, sem seguir blogs escandinavos. Para falar a verdade, eu nem gosto do nome, ou melhor, do rótulo de “minimalista”. Mas uso essa palavra mesmo para me fazer entender.

A principal lição que o minimalismo me trouxe foi de olhar para mim e encarar todos os abismos, fraquezas e todo aquele monte de coisas que tentamos esconder sob uma máscara de felicidade. É óbvio que nego muitas dessas fraquezas, e é bem provável que continuarei negando a imensa maioria dos meus abismos para sempre. Mas abrir os olhos para aquele 1% já me abalou bastante e permitiu me conhecer melhor.

Não me considero de modo algum livre do consumismo. Sou bem ciente de que sair para comprar é bom pra cacete, seja lá o que for. Dar aquela renovada, ter aquela sensação de que tudo vai ficar bem, de poder, de posse, de ser visto, e blá blá blá, vocês são inteligentes e sabem.

“Mas, porém, todavia, contudo”, como diria o sábio professor Girafales, essa alegria dura pouco, e logo logo volta toda aquela melancolia, e ficam as tralhas que compramos, que dependendo do tamanho, vão nos fazer bater o dedinho do pé no caminho para o banheiro de madrugada.

No meu caso, o que observei foi que quando comprava para aliviar as tristezinhas, me apoiava na ideia de ficar feliz por “possuir” algo. E muitas outras vezes também imaginava a reação das pessoas ao saberem que eu “possuía” tal coisa. Mas a maioria não estava nem aí por eu ter comprado algo ou não, e ficava eu com minha coisa sendo reizinho poderoso apenas para mim mesmo, porque os súditos imaginários que eu inventava nem sabiam que eu queria que fossem meus súditos.

E então, sem ninguém para admirar as merdas que eu tinha comprado, com a melancolia que não passava e com menos dinheiro na carteira, comecei a pensar que talvez fosse melhor aprender a lidar com aquele sentimentozinho melancólico. E doeu, doeu muito não colocar nada no lugar. Mas com isso, aprendi a fugir um pouco menos do que me incomoda de verdade em mim. 1% só, não vou fingir que me iluminei…

Acho que essa ideia da posse e acúmulo permeia muito nossa sociedade, indo desde os relacionamentos, conhecimentos, títulos, até a resolução de tristezas via consumo. E para quem tem um autocontrole menor, pode virar um problema sério com cartões de crédito.

Enfim, devaneios à parte, no final das contas todo mundo faz o que quer. Consumir não é errado, mas tomar consciência dos processos complexos que nos fazem consumir pode ser uma aventura pessoal interessante.

Minimalismo além do Pinterest: 5 reflexões para ficar menos frustrado

A estética do minimalismo é muito legal. Sóbria, moderna e elegante, ela ganhou inúmeros adeptos pelo mundo e virou tendência de decoração. E que tal levar o minimalismo para além da estética?

Primeiramente, devemos salientar que não há problema algum em adotar o minimalismo apenas como uma corrente estética, mas ele pode ser mais do que isso e fazer sua vida bem mais descomplicada.

Confira 5 pontos para refletir e encarar o minimalismo para além da decoração.

1. Economia e praticidade

Um dos pontos centrais do minimalismo é viver com menos, seja para facilitar a vida, economizar dinheiro ou contribuir com a preservação do meio ambiente. E tudo isso se reflete na sua rotina, se aplicado verdadeiramente.

Não é necessário jogar tudo fora e redecorar a sua casa com móveis caros só porque eles tem uma cara minimalista. (E se você quiser também não tem problema).

A questão é assimilar o viver com menos dentro de você, e então não será necessário redecorar tudo com móveis de design. Você se tornará menos consumista, comprará menos tralhas por impulso, e não irá comprar simplesmente para aliviar a tristeza. E então sobrará mais dinheiro, mais tempo, menos coisas para cuidar e menos móveis para bater o dedinho do pé.

2. Conforto

Consumir menos significa ficar menos estressado por endividamento. Significa que no final do mês você sofrerá menos a angústia de gastar todo o seu salário com as contas para pagar. Assim, sua vida ficará mais confortável e, se quiser, pode até ser mais fácil de economizar para o que você realmente quer, seja lá o que for.

E o conforto não é apenas financeiro, mas também mental, já que você irá competir menos para comprar coisas.

3. Não se endivide ao entrar no minimalismo

Ser minimalista não necessita bradar sua nova filosofia de vida aos quatro ventos para que todo mundo saiba que você é de fato um minimalista. E não precisa redecorar a casa toda com móveis caros. Na verdade nem precisa redecorar a casa.

Ao optar pelo minimalismo, escolha o que é melhor para o seu bolso, para o seu bem-estar, e então você estará vivendo o minimalismo de verdade, sem nem precisar comprar um sofá de linhas retas. O minimalismo precisa primeiro existir dentro de você.

Se você jogou seus móveis fora, comprou tudo novo e bonitinho e agora está cheio de boletos chegando, meu bem, você está fazendo isso errado e caiu em um modismo.

4. Cuidado com a frustração

Você navega no Pinterest procurando por inspirações minimalistas, e elas são todas lindas e elegantérrimas (e realmente são). Mas na sua casa você não consegue atingir aquele padrão escandinavo e fica frustrado. Não tem problema!

Na nossa cultura, existe um forte consumo de imagens. O corpo perfeito, a decoração perfeita, o relacionamento, o diploma, as viagens… e até o minimalismo. Não deixe essas imagens de revista fazerem você ficar triste. O seu minimalismo é o seu minimalismo, e ninguém precisa se meter nele. Cuidado com os fiscais.

Se o seu minimalismo é feito de potinhos de sorvete, e não de cerâmicas elegantes, não tem problema, seu minimalismo é lindo e autêntico! Não precisa sofrer pra ter uma casa de revista se na sua rotina está tudo certo na maneira com que você encontra para aplicar o minimalismo. Você não mora dentro de uma revista, e sim no mundo real. Lembre-se disso.

5. Simplifique!

O minimalismo como filosofia tem seu grande pilar na simplicidade. Se você está sofrendo para ser minimalista, talvez esteja procurando por padrões inatingíveis de revista, ou simplesmente o minimalismo não é pra você. E se ele não for pra você, tudo bem!

O importante é que você consiga simplificar a vida de verdade para viver com mais qualidade, ter mais tempo para fazer o que gosta, mais tempo para a família e os amigos, e menos contas para pagar.

Quais hábitos nocivos você pode cortar para viver melhor? No final, é só isso que importa. E foda-se a decoração da casa.