Natalia Ginzburg e o lirismo do cotidiano em “Léxico Familiar”

Quem já leu alguma obra de Natalia Ginzburg certamente percebeu sua habilidade peculiar de trazer lirismo aos momentos mais comuns do cotidiano, que por muitos seriam tratados como materiais inexpressivos.

Este material cotidiano, doméstico e familiar serve para a autora italiana para criar uma prosa extremamente rica e intimista, que conduz o leitor a uma nostalgia pelas famílias descritas, das quais tem a oportunidade de ser um membro ao ler a obra de Ginzburg. Ao terminar um de seus livros, fica a saudade das personagens das quais passamos a ter quase o mesmo sangue. Sangue de tinta sobre papel.

Em Léxico Familiar, de 1963, considerada por muitos a maior obra da escritora italiana, temos um vislumbre de memórias dos duros anos 30, com a Europa sob as terríveis leis raciais, em que inúmeras famílias foram forçadas a retirar-se de seus lares, caminhando muitas vezes para sua aniquilação.

Neste contexto, Ginzburg, que narra as memórias de sua família judia antifascista durante esses anos sombrios, reconstrói suas memórias por meio de um léxico afetivo. Toda família tem seu léxico, um conjunto de expressões ditas com frequência, e para quem pertence ao grupo, basta martelar a frase mais uma vez para que se saiba quem é seu interlocutor. Após a leitura, paira sobre o leitor um sentimento de melancolia e saudade pelo léxico da família de Natália, como se por um instante tivesse feito parte dela, e então passa a prestar mais atenção no próprio léxico.

A obra, com seu caráter pequenino e doméstico, pinta um retrato sentimental de uma família que paira em incertezas junto de um continente inteiro, revelando um lirismo intimista e potente. A casa passa a ser, neste contexto de opressão, mais do que nunca, um ninho. Não um ninho perfeito, mas uma casa como são todas as casas em que habitam famílias: cheias de alegrias e tristezas, plena de sentimentos ambíguos e das palavras que fazem nascer todas estas emoções.

Léxico Familiar mostra-se uma pequena pérola preciosa cheia de afeição, que convida o leitor a morar com a família de Ginzburg por meio da matéria mais própria dos escritores: as palavras.

Debret e o Brasil: um livro épico

Uma das coisas interessantes de se fazer no livro é identificar locais conhecidos (já que Debret viajou por diversas partes do Brasil) e perceber a mudança da paisagem, e em alguns casos, verificar que os prédios e elementos naturais ainda estão por lá.

O livro

Publicado pela Editora Capivara, especializada em arte e temas brasileiros, o livro “Debret e o Brasil”, de Júlio Bandeira e Pedro Corrêa do Lago, traz a produção completa de Jean-Baptiste Debret nos 15 anos em que trabalhou no Brasil, entre 1816 e 1831.

Faltam adjetivos para descrever o livro. Monumental ainda seria pouco. A edição é de um esmero e cuidado raros, todos trabalhados nos mínimos detalhes. Para se ter uma ideia, a família tipográfica escolhida pelos editores foi inspirada na mesma tipografia utilizada na edição de Voyage Pitoresque“, de Debret, em 1834.

Com mais de 700 páginas e 4 quilos, o livro traz mais de 1300 imagens, contemplando a totalidade do trabalho do pintor francês em solo brasileiro. O formato grande da edição possibilita uma experiência visual imersiva, que permite que até mesmo pequenos detalhes dos óleos, aquarelas, desenhos e gravuras possam ser observados na impressão de alta qualidade.

Paisagens urbanas e naturais, vestimentas, hábitos, a dolorosa condição dos escravos, a aristocracia e os personagens humildes, as frutas, os utensílios indígenas, nada escapou ao olhar atento de Debret. A contextualização histórica trazida pelos textos nos transporta no tempo, para o Brasil do século XIX, e permite compreender o passado e o presente.

O livro é um documento histórico essencial para historiadores e amantes da arte, bem como para o público geral, e é uma das publicações de maior relevância em seu gênero dos últimos anos.

Uma das coisas interessantes de se fazer no livro é identificar locais conhecidos (já que Debret viajou por diversas partes do Brasil) e perceber a mudança da paisagem, e em alguns casos, verificar que os prédios e elementos naturais ainda estão por lá.

Debret

Jean-Baptiste Debret foi um pintor francês que integrou a Missão Artística Francesa no Brasil. Nela, retratou em suas obras não apenas o cotidiano do Brasil da época, que englobava a aristocracia, da população em geral e a vida dos escravos, mas também acontecimentos históricos anteriores à independência do país.

A arte visceral e mística de Karin Lambrecht

A obra de Karin tem a profundidade e vastidão oceânicas, e como tal, nos dá uma sensação de nunca poder ser compreendida em totalidade, tão profundos que são seus abismos, seus mistérios, referências e processos. Quando tentamos explicá-la, parece que entramos em um domínio do sentir em que nos faltam palavras e nos resta apenas a intensidade do sentir.

Experiências pessoais

Meu primeiro contato com a obra de Karin Lambrecht aconteceu por acaso, em um passeio por Porto Alegre, quando decidi entrar no Santander Cultural, pois tinha bastante tempo naquele dia.

A exposição para mim foi arrebatadora, e me fez lembrar da minha avó, em uma lembrança ao mesmo tempo cheia de doçura e muita dor. Isso porque Lambrecht trabalha com crucifixos, ouro, rasgos, palavras, rins e sangue (literalmente).

A simbologia católica estava toda lá, em todo o seu sofrimento, beleza e repressão. Aquele era o mundo da minha avó, embora ela, diferente de Karin, não tinha qualquer erudição ao tratar do tema. Minha avó vivia o catolicismo sem compreendê-lo, apenas por temê-lo e achá-lo correto, como fazem tantas avós.

Eu, do contrário, só tinha sofrimentos perante o cristianismo, mas amava minha avó com uma força incomensurável. E assim, diante de telas pintadas com sangue e tantas outras com trechos das Escrituras, minha emoção não poderia ser outra do que uma nostalgia doce e dolorida.

“Sem título”, 1999-2000. Terra rosa da região de Caraiva, sul da Bahia, em meio acrílico e carvão sobre lona.

A artista e sua obra

Karin Lambrecht nasceu em Porto Alegre em 1957, e é conhecida pela força com que trabalha a mitologia cristã. Seu trabalho está repleto de palavras, tanto soltas quanto de textos das Escrituras. Seu trabalho é forte e pulsante, com uma riqueza de tons de vermelho, azul e do amarelo em tons de ferrugem.

Esta potência entre o grotesco e o sublime vem desde o início de sua carreira, quando concebia suas obras com resíduos industriais. Depois, vieram as telas rasgadas e o sangue de animais. Sua obra é uma representante perfeita do enlace ao mesmo tempo bárbaro, sublime e místico do cristianismo.

“Animal”, 2004. Sangue de carneiro sobre tecido branco e papel .

Os materiais de suas obras constituem um elemento fortíssimo de sua expressão, ligados à transitoriedade da vida, ao sacrifício e à mística. Além do sangue e dos rasgos, dos tecidos amassados e penduradas e das marcas da indústria, Lambrecht utiliza arames contorcidos de modo agonizante sobre cruzes de papel; permite que o tempo atue sobre suas obras, deixando-as expostas à natureza durante seu processo de criação, em um resultado absolutamente intenso e sublime.

Seu trabalho é uma verdadeira materialização do cristianismo. Se os artistas do passado retrataram as figuras cristãs em uma idealização angelical, Lambrecht mostra-nos o cerne, o coração pulsante de dor e magia da religião.

“Mundu”, 2011-2012. Pigmentos em emulsão acrílica, chuva, marcas de pedras e caligrafias sobre lona.

Para conhecer em profundidade

A obra de Karin tem a profundidade e vastidão oceânicas, e como tal, nos dá uma sensação de nunca poder ser compreendida em totalidade, tão profundos que são seus abismos, seus mistérios, referências e processos. Quando tentamos explicá-la, parece que entramos em um domínio do sentir em que nos faltam palavras e nos resta apenas a intensidade do sentir.

Quem mergulhou fundo no oceano que é a obra de Karin Lambrecht foi Glória Ferreira, que organizou o primeiro e muito rico livro sobre a artista, publicado pela Cosac Naify, trazendo suas pinturas mais importantes, além de colagens e instalações.

O livro é extremamente farto em imagens, todas coloridas. Com formato grande e quase 300 páginas, permite uma apreciação intensa da obra de Lambrecht. Além do farto material gráfico, a obra ainda conta com uma entrevista com a artista feita por Agnaldo Farias, bem como esclarecedores textos de Glória Ferreira, Miguel Chaia e Viviane G. Araújo.

E o livro não para por aí. Seu final é reservado para uma cronologia e uma genial “Fortuna Crítica”, com textos sobre a artista escritos por outros seis estudiosos, fornecendo um mergulho intenso e esclarecedor sobre a oceânica Karin Lambrecht. Estes textos são impressos em tinta bordô, fazendo uma alusão a suas obras em sangue. As separações internas do livro também são em bordô, impresso em páginas inteiras, em um projeto gráfico que se mostra conhecedor da obra, e acaba por unir-se a ela na imersão visual que o livro apresenta.

Karin Lambrecht tem, sem qualquer dúvida, uma das produções mais intensas e ricas em materiais da arte contemporânea brasileira.

Mais obras

“Desmembramento”, 2000. Linha de sangue derradeiro de carneiro sobre lona. 180 x 1.170 cm. Museu de Arte Moderna-RJ / Coleção Gilberto Chateaubriand.



“Meu corpo Inês”, 2005. Registro de ação e instalação.

“Morte d’luz”, 2007. Sobre uma tela (instalada em uma parede de 51 m2, no MAC-USP) coberta de mel de laranjeiras, cultivado pelo setor de Biociência da USP, cerca de três mil folhas de ouro.

“Sem título”, 1999 – 2000. Terra de diferentes regiões do Brasil, pigmentos em meio acrílico sobre lona.

“Dia”, 2005. Feltro sintético, papel, grafite, recortes, linho e cera de abelha.

O livro de Lambrecht pode ser encontrado na Amazon, que possui alguns dos últimos exemplares publicados pela Cosac Naify.