As 5 obras de arte mais caras do mundo

1. Salvator Mundi – Leonardo Da Vinci ( US$ 450 milhões)

Vendido pelo valor recorde de US$ 450,3 milhões em novembro de 2017, o quadro está desaparecido desde que deixou a casa de leilões Christie’s.

Adquirido de forma anônima, estima-se que o comprador era ligado ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman..

2. As mulheres de Argel (versão 0) – Pablo Picasso (US$ 179 milhões)

Pintada em 1955, a obra do espanhol representa um harém. A identidade do comprador não foi revelada.

3. Nu Deitado – Amadeo Modigliani (US$ 170,4 milhões)

O italiano Amedeo Modigliani pintou este quadro em 1917, apenas três anos antes de morrer. Em novembro de 2015, foi vendida na Christie’s de Nova York por 170,4 milhões de dólares. O novo proprietário é Liu Yiqian, de Xangai, China.

4. Três estudos de Lucian Freud – Francis Bacon (US$ 142,4 milhões)

Até maio de 2015, a obra batia o recorde de quadros mais caros já leiloados. Pintados em 1969, os retratos mostram o também pintor Lucian Freud.

5. Adele Bloch-Bauer I – Gustav Kimt (US$ 135 milhões)

Pintado pelo austríaco Gustav Klimt em 1907, o quadro “Adele Bloch-Bauer I” também é conhecido como “Adele Dourada”. Foi adquirido peloo empresário americano Ronald Lauder, em 2006, para uma galeria em Nova York, onde está exposto.

Joseph Boulogne, o “Mozart” Negro

O hoje praticamente desconhecido Joseph Boulogne, Chevalier de Saint-George (1745 – 1799), foi um exímio compositor do período Clássico, nascido em Gadalupe, e que passou grande parte da vida na França.

Joseph era filho de George Bologne de Saint-Georges, um próspero proprietário de terras, e sua mãe era uma das escravas do pai, chamada Nanon, da qual infelizmente se sabe pouco.

Boulogne tornou-se um grande compositor, um dos primeiros músicos da Europa conhecido pela ascendência africana. Boulogne foi um dos grandes nomes do Classicismo na música, e influenciou o compositor que hoje é considerado o maior nome do período: Wolfgang Amadeus Mozart.

Contudo, Boulogne ficou conhecido de modo ingrato como o “Mozart Negro”, já que foi Boulogne o influenciador, e não o influenciado. Tal falta de reconhecimento foi infelizmente comum com muitos artistas negros, e se perpetua até hoje.

Aos 7 anos, o pequeno Joseph foi levado pelo pai de Guadalupe para a França, para receber o melhor do que a educação da época poderia oferecer. Presume-se que Nanon, sua mãe, tenha se mudado para a França com eles, de modo discreto. Outras fontes dizem que teria sido abandonada. De concreto sabe-se pouco.

Joseph era um estudante brilhante, e além da música, destacava-se na dança e na esgrima. Na esgrima, também foi apelidado com um nome branco: Boëssière Mulato, em alusão a um famoso esgrimista.

Aos 23, foi considerado inimitável na arte do violino, por conta de sua habilidade técnica excepcional. Celebrado por uns, odiado por outros, Joseph foi indicado com diretor musical da Ópera de Paris em 1776. Apesar dos protestos para que fosse impedido de assumir o cargo, por conta do racismo, Boulogne foi um dos nomes mais célebres da França do século 18.

Celebridade respeitada no século 18, Joseph Boulogne caiu no esquecimento a partir do século 19. A genialidade do compositor foi resgatada somente em 1974, pelo violinista Jean-Jacques Kantorow, que apresentou as primeiras gravações de sua obra ao mundo, reconstituindo uma figura fundamental na história da música.

Sua música vibrante, bela e de extremo primor técnico é a encarnação da estética da música do século 18.

Mesmo assim, Boulogne segue fora do repertório das orquestras pelo mundo.

De Joseph Boulogne, separamos os concertos para violino, instrumento que dominou como poucos.

Boa audição!

A poesia intimista de Wisława Szymborska

Quem já leu o poema “Sob uma estrela pequenina” certamente apaixonou-se por Szymborska. A poetisa polonesa vencedora do Nobel de Literatura de 1996 era praticamente desconhecida dos leitores brasileiros até 2011, quando a Companhia das Letras publicou o livro “Poemas”, com 44 de seus poemas, e uma capa cativante, com a simpática poetisa fumando.

Depois, em 2016, foi a vez dos brasileiros conhecerem as obras reunidas em “Um Amor Feliz”, também pela Companhia das Letras; e em 2018, o encantador “Riminhas para Crianças Grandes”, desta vez pela Ayine.

Com sua poesia de caráter cotidiano, Wisława consegue conectar-se com o leitor de forma íntima e delicada, evocando a beleza do ser comum e informal, sem perder o lirismo.

Wisława Szymborska nasceu em 1923, na Polônia. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou como funcionária de uma ferrovia para evitar a deportação pelos nazistas. Neste período, escrevia alguns contos e fazia ilustrações para um manual de estudos de inglês.

Com o fim da Guerra, em 1945, entrou para a universidade para estudar Filologia Polaca, mas abandonou o curso para estudar Sociologia, porém não terminou os estudos por conta de sua situação financeira nada favorável.

Conhecida por ser reservada e tímida, pouco se sabe sobre sua vida privada, mas seus poemas mostram uma personalidade questionadora e sensível. Talvez o que mais nos fascine em sua obra seja sua incrível habilidade de trazer lirismo aos acontecimentos simples do cotidiano. Isso faz com que sua obra converse intimamente conosco, arrancando alguns sorrisos de nostalgia, e até pela beleza da melancolia.

Wisława faleceu em fevereiro de 2012, em Cracóvia.

E agora, saboreie “Sob uma estrela pequenina”:

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

“Aranha”, de Louise Bourgeois, na Fundação Iberê Camargo

A obra “Aranha”, de Louise Bourgeois estará na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, até o dia 28 de julho de 2019.

A escultura gigante é um “autorretrato” da infância da artista, seus traumas e a relação com a mãe, que considerava como melhor amiga e alguém que a protegeu de diversas formas.

A obra de Bourgeois na Fundaçãi Iberê Camargo. Foto de Félix Zucco.

Segundo a Fundação Iberê Camargo “Bourgeois cresceu em um ateliê de restauro de tapeçarias. Com a morte da mãe, em 1932, a jovem abandonou os estudos em matemática para transformar suas experiências em uma linguagem visual altamente pessoal, por meio do uso de imagens mitológicas e arquetípicas, adotando objetos como espirais, gaiolas, ferramentas médicas e as famosas aranhas para simbolizar a psique feminina, a beleza e a dor psicológica. Spider tem mais de 3 metros de altura em bronze e está equilibrada em oito pernas, com terminações que remetem à agulha e ao bordado.”

Ver a “Aranha” é uma oportunidade singular, repleta de afeto e dor, em um animal que não é associado costumeiramente à maternidade.

A Fundação Iberê Camargo fica na Avenida Padre Cacique, 2000, Bairro Cristal, Porto Alegre-RS. Para saber mais, acesse: http://iberecamargo.org.br/visite/#como-chegar

Debret e o Brasil: um livro épico

Uma das coisas interessantes de se fazer no livro é identificar locais conhecidos (já que Debret viajou por diversas partes do Brasil) e perceber a mudança da paisagem, e em alguns casos, verificar que os prédios e elementos naturais ainda estão por lá.

O livro

Publicado pela Editora Capivara, especializada em arte e temas brasileiros, o livro “Debret e o Brasil”, de Júlio Bandeira e Pedro Corrêa do Lago, traz a produção completa de Jean-Baptiste Debret nos 15 anos em que trabalhou no Brasil, entre 1816 e 1831.

Faltam adjetivos para descrever o livro. Monumental ainda seria pouco. A edição é de um esmero e cuidado raros, todos trabalhados nos mínimos detalhes. Para se ter uma ideia, a família tipográfica escolhida pelos editores foi inspirada na mesma tipografia utilizada na edição de Voyage Pitoresque“, de Debret, em 1834.

Com mais de 700 páginas e 4 quilos, o livro traz mais de 1300 imagens, contemplando a totalidade do trabalho do pintor francês em solo brasileiro. O formato grande da edição possibilita uma experiência visual imersiva, que permite que até mesmo pequenos detalhes dos óleos, aquarelas, desenhos e gravuras possam ser observados na impressão de alta qualidade.

Paisagens urbanas e naturais, vestimentas, hábitos, a dolorosa condição dos escravos, a aristocracia e os personagens humildes, as frutas, os utensílios indígenas, nada escapou ao olhar atento de Debret. A contextualização histórica trazida pelos textos nos transporta no tempo, para o Brasil do século XIX, e permite compreender o passado e o presente.

O livro é um documento histórico essencial para historiadores e amantes da arte, bem como para o público geral, e é uma das publicações de maior relevância em seu gênero dos últimos anos.

Uma das coisas interessantes de se fazer no livro é identificar locais conhecidos (já que Debret viajou por diversas partes do Brasil) e perceber a mudança da paisagem, e em alguns casos, verificar que os prédios e elementos naturais ainda estão por lá.

Debret

Jean-Baptiste Debret foi um pintor francês que integrou a Missão Artística Francesa no Brasil. Nela, retratou em suas obras não apenas o cotidiano do Brasil da época, que englobava a aristocracia, da população em geral e a vida dos escravos, mas também acontecimentos históricos anteriores à independência do país.

A arte visceral e mística de Karin Lambrecht

A obra de Karin tem a profundidade e vastidão oceânicas, e como tal, nos dá uma sensação de nunca poder ser compreendida em totalidade, tão profundos que são seus abismos, seus mistérios, referências e processos. Quando tentamos explicá-la, parece que entramos em um domínio do sentir em que nos faltam palavras e nos resta apenas a intensidade do sentir.

Experiências pessoais

Meu primeiro contato com a obra de Karin Lambrecht aconteceu por acaso, em um passeio por Porto Alegre, quando decidi entrar no Santander Cultural, pois tinha bastante tempo naquele dia.

A exposição para mim foi arrebatadora, e me fez lembrar da minha avó, em uma lembrança ao mesmo tempo cheia de doçura e muita dor. Isso porque Lambrecht trabalha com crucifixos, ouro, rasgos, palavras, rins e sangue (literalmente).

A simbologia católica estava toda lá, em todo o seu sofrimento, beleza e repressão. Aquele era o mundo da minha avó, embora ela, diferente de Karin, não tinha qualquer erudição ao tratar do tema. Minha avó vivia o catolicismo sem compreendê-lo, apenas por temê-lo e achá-lo correto, como fazem tantas avós.

Eu, do contrário, só tinha sofrimentos perante o cristianismo, mas amava minha avó com uma força incomensurável. E assim, diante de telas pintadas com sangue e tantas outras com trechos das Escrituras, minha emoção não poderia ser outra do que uma nostalgia doce e dolorida.

“Sem título”, 1999-2000. Terra rosa da região de Caraiva, sul da Bahia, em meio acrílico e carvão sobre lona.

A artista e sua obra

Karin Lambrecht nasceu em Porto Alegre em 1957, e é conhecida pela força com que trabalha a mitologia cristã. Seu trabalho está repleto de palavras, tanto soltas quanto de textos das Escrituras. Seu trabalho é forte e pulsante, com uma riqueza de tons de vermelho, azul e do amarelo em tons de ferrugem.

Esta potência entre o grotesco e o sublime vem desde o início de sua carreira, quando concebia suas obras com resíduos industriais. Depois, vieram as telas rasgadas e o sangue de animais. Sua obra é uma representante perfeita do enlace ao mesmo tempo bárbaro, sublime e místico do cristianismo.

“Animal”, 2004. Sangue de carneiro sobre tecido branco e papel .

Os materiais de suas obras constituem um elemento fortíssimo de sua expressão, ligados à transitoriedade da vida, ao sacrifício e à mística. Além do sangue e dos rasgos, dos tecidos amassados e penduradas e das marcas da indústria, Lambrecht utiliza arames contorcidos de modo agonizante sobre cruzes de papel; permite que o tempo atue sobre suas obras, deixando-as expostas à natureza durante seu processo de criação, em um resultado absolutamente intenso e sublime.

Seu trabalho é uma verdadeira materialização do cristianismo. Se os artistas do passado retrataram as figuras cristãs em uma idealização angelical, Lambrecht mostra-nos o cerne, o coração pulsante de dor e magia da religião.

“Mundu”, 2011-2012. Pigmentos em emulsão acrílica, chuva, marcas de pedras e caligrafias sobre lona.

Para conhecer em profundidade

A obra de Karin tem a profundidade e vastidão oceânicas, e como tal, nos dá uma sensação de nunca poder ser compreendida em totalidade, tão profundos que são seus abismos, seus mistérios, referências e processos. Quando tentamos explicá-la, parece que entramos em um domínio do sentir em que nos faltam palavras e nos resta apenas a intensidade do sentir.

Quem mergulhou fundo no oceano que é a obra de Karin Lambrecht foi Glória Ferreira, que organizou o primeiro e muito rico livro sobre a artista, publicado pela Cosac Naify, trazendo suas pinturas mais importantes, além de colagens e instalações.

O livro é extremamente farto em imagens, todas coloridas. Com formato grande e quase 300 páginas, permite uma apreciação intensa da obra de Lambrecht. Além do farto material gráfico, a obra ainda conta com uma entrevista com a artista feita por Agnaldo Farias, bem como esclarecedores textos de Glória Ferreira, Miguel Chaia e Viviane G. Araújo.

E o livro não para por aí. Seu final é reservado para uma cronologia e uma genial “Fortuna Crítica”, com textos sobre a artista escritos por outros seis estudiosos, fornecendo um mergulho intenso e esclarecedor sobre a oceânica Karin Lambrecht. Estes textos são impressos em tinta bordô, fazendo uma alusão a suas obras em sangue. As separações internas do livro também são em bordô, impresso em páginas inteiras, em um projeto gráfico que se mostra conhecedor da obra, e acaba por unir-se a ela na imersão visual que o livro apresenta.

Karin Lambrecht tem, sem qualquer dúvida, uma das produções mais intensas e ricas em materiais da arte contemporânea brasileira.

Mais obras

“Desmembramento”, 2000. Linha de sangue derradeiro de carneiro sobre lona. 180 x 1.170 cm. Museu de Arte Moderna-RJ / Coleção Gilberto Chateaubriand.



“Meu corpo Inês”, 2005. Registro de ação e instalação.

“Morte d’luz”, 2007. Sobre uma tela (instalada em uma parede de 51 m2, no MAC-USP) coberta de mel de laranjeiras, cultivado pelo setor de Biociência da USP, cerca de três mil folhas de ouro.

“Sem título”, 1999 – 2000. Terra de diferentes regiões do Brasil, pigmentos em meio acrílico sobre lona.

“Dia”, 2005. Feltro sintético, papel, grafite, recortes, linho e cera de abelha.

O livro de Lambrecht pode ser encontrado na Amazon, que possui alguns dos últimos exemplares publicados pela Cosac Naify.