A Dama Dourada

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas roubaram várias obras de arte, muitas delas perdidas até hoje. No filme “A Dama Dourada”, temos o caso real da luta de Maria Altmann, interpretada por ninguém menos que Helen Mirren, que tenta rever os quadros de sua família tomados pelos nazistas.

O quadro em questão é um retrato da tia de Maria, Adele. Mas não um retrato comum, e sim um fabuloso quadro pintado por Gustav Klimt, em todo o esplendor de sua icônica fase dourada.

Para quem prefere ler antes, também há um livro sobre o filme, de mesmo nome e que retrata em detalhes a vida da família Bloch-Bauer e toda a decadência de Viena durante a Segunda Guerra.

Retrato de Adele Bloch-Bauer I . Gustav Klimt, 1907.

Maria, que vive em Los Angeles e tem uma modesta loja de roupas, decide entrar com um processo contra o governo austríaco para recuperar o quadro da tia. Sua família austríaca era muito abastada, e tal como muitos judeus, teve suas posses confiscadas durante a Segunda Guerra Mundial.

Para isso, Maria conta com a ajuda do advogado Randol Schoenberg. Randol não era um grande advogado, e passava por vários problemas pessoais. Mesmo assim, persiste no caso mais por respeito por Maria, que é amiga da família, do que por realmente acreditar que a obra de importância incomensurável possa realmente ser recuperada.

A verdadeira Maria Altmann.

Randol, tal como Maria, é descendente de austríacos, e também de um artista importantíssimo: o compositor Arnold Schoenberg, da magistral “Noite Transfigurada”.

Um dos pontos mais interessantes do filme é retratar duas pessoas comuns com antepassados gloriosos tentando reaver suas próprias histórias. E o filme não é daquelas batalhas judiciais entediantes e sem fim, e sim é bastante dinâmico, com flashbacks para a época da guerra que são de tirar o fôlego, como na cena da fuga de avião, que faz o coração saltar.

Adele é de arrancar suspiros, e todo o ambiente luxuoso e cultural da família é memorável, em uma atmosfera que lembra e muito a aura dourada dos quadros de Klimt. Além disso, a atriz também é muito parecida com a Adele verdadeira.

Infelizmente o filme não tem uma boa nota nos sites sobre cinema, o que é bastante injusto, já que é bem feito e emocionante, e certamente encantará os amantes da arte e dos filmes de guerra. Apesar das críticas negativas, vale muito a pena ser assistido.

Helen Mirren como Maria

As 5 obras de arte mais caras do mundo

1. Salvator Mundi – Leonardo Da Vinci ( US$ 450 milhões)

Vendido pelo valor recorde de US$ 450,3 milhões em novembro de 2017, o quadro está desaparecido desde que deixou a casa de leilões Christie’s.

Adquirido de forma anônima, estima-se que o comprador era ligado ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman..

2. As mulheres de Argel (versão 0) – Pablo Picasso (US$ 179 milhões)

Pintada em 1955, a obra do espanhol representa um harém. A identidade do comprador não foi revelada.

3. Nu Deitado – Amadeo Modigliani (US$ 170,4 milhões)

O italiano Amedeo Modigliani pintou este quadro em 1917, apenas três anos antes de morrer. Em novembro de 2015, foi vendida na Christie’s de Nova York por 170,4 milhões de dólares. O novo proprietário é Liu Yiqian, de Xangai, China.

4. Três estudos de Lucian Freud – Francis Bacon (US$ 142,4 milhões)

Até maio de 2015, a obra batia o recorde de quadros mais caros já leiloados. Pintados em 1969, os retratos mostram o também pintor Lucian Freud.

5. Adele Bloch-Bauer I – Gustav Kimt (US$ 135 milhões)

Pintado pelo austríaco Gustav Klimt em 1907, o quadro “Adele Bloch-Bauer I” também é conhecido como “Adele Dourada”. Foi adquirido peloo empresário americano Ronald Lauder, em 2006, para uma galeria em Nova York, onde está exposto.

“Aranha”, de Louise Bourgeois, na Fundação Iberê Camargo

A obra “Aranha”, de Louise Bourgeois estará na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, até o dia 28 de julho de 2019.

A escultura gigante é um “autorretrato” da infância da artista, seus traumas e a relação com a mãe, que considerava como melhor amiga e alguém que a protegeu de diversas formas.

A obra de Bourgeois na Fundaçãi Iberê Camargo. Foto de Félix Zucco.

Segundo a Fundação Iberê Camargo “Bourgeois cresceu em um ateliê de restauro de tapeçarias. Com a morte da mãe, em 1932, a jovem abandonou os estudos em matemática para transformar suas experiências em uma linguagem visual altamente pessoal, por meio do uso de imagens mitológicas e arquetípicas, adotando objetos como espirais, gaiolas, ferramentas médicas e as famosas aranhas para simbolizar a psique feminina, a beleza e a dor psicológica. Spider tem mais de 3 metros de altura em bronze e está equilibrada em oito pernas, com terminações que remetem à agulha e ao bordado.”

Ver a “Aranha” é uma oportunidade singular, repleta de afeto e dor, em um animal que não é associado costumeiramente à maternidade.

A Fundação Iberê Camargo fica na Avenida Padre Cacique, 2000, Bairro Cristal, Porto Alegre-RS. Para saber mais, acesse: http://iberecamargo.org.br/visite/#como-chegar

Debret e o Brasil: um livro épico

Uma das coisas interessantes de se fazer no livro é identificar locais conhecidos (já que Debret viajou por diversas partes do Brasil) e perceber a mudança da paisagem, e em alguns casos, verificar que os prédios e elementos naturais ainda estão por lá.

O livro

Publicado pela Editora Capivara, especializada em arte e temas brasileiros, o livro “Debret e o Brasil”, de Júlio Bandeira e Pedro Corrêa do Lago, traz a produção completa de Jean-Baptiste Debret nos 15 anos em que trabalhou no Brasil, entre 1816 e 1831.

Faltam adjetivos para descrever o livro. Monumental ainda seria pouco. A edição é de um esmero e cuidado raros, todos trabalhados nos mínimos detalhes. Para se ter uma ideia, a família tipográfica escolhida pelos editores foi inspirada na mesma tipografia utilizada na edição de Voyage Pitoresque“, de Debret, em 1834.

Com mais de 700 páginas e 4 quilos, o livro traz mais de 1300 imagens, contemplando a totalidade do trabalho do pintor francês em solo brasileiro. O formato grande da edição possibilita uma experiência visual imersiva, que permite que até mesmo pequenos detalhes dos óleos, aquarelas, desenhos e gravuras possam ser observados na impressão de alta qualidade.

Paisagens urbanas e naturais, vestimentas, hábitos, a dolorosa condição dos escravos, a aristocracia e os personagens humildes, as frutas, os utensílios indígenas, nada escapou ao olhar atento de Debret. A contextualização histórica trazida pelos textos nos transporta no tempo, para o Brasil do século XIX, e permite compreender o passado e o presente.

O livro é um documento histórico essencial para historiadores e amantes da arte, bem como para o público geral, e é uma das publicações de maior relevância em seu gênero dos últimos anos.

Uma das coisas interessantes de se fazer no livro é identificar locais conhecidos (já que Debret viajou por diversas partes do Brasil) e perceber a mudança da paisagem, e em alguns casos, verificar que os prédios e elementos naturais ainda estão por lá.

Debret

Jean-Baptiste Debret foi um pintor francês que integrou a Missão Artística Francesa no Brasil. Nela, retratou em suas obras não apenas o cotidiano do Brasil da época, que englobava a aristocracia, da população em geral e a vida dos escravos, mas também acontecimentos históricos anteriores à independência do país.

A arte visceral e mística de Karin Lambrecht

A obra de Karin tem a profundidade e vastidão oceânicas, e como tal, nos dá uma sensação de nunca poder ser compreendida em totalidade, tão profundos que são seus abismos, seus mistérios, referências e processos. Quando tentamos explicá-la, parece que entramos em um domínio do sentir em que nos faltam palavras e nos resta apenas a intensidade do sentir.

Experiências pessoais

Meu primeiro contato com a obra de Karin Lambrecht aconteceu por acaso, em um passeio por Porto Alegre, quando decidi entrar no Santander Cultural, pois tinha bastante tempo naquele dia.

A exposição para mim foi arrebatadora, e me fez lembrar da minha avó, em uma lembrança ao mesmo tempo cheia de doçura e muita dor. Isso porque Lambrecht trabalha com crucifixos, ouro, rasgos, palavras, rins e sangue (literalmente).

A simbologia católica estava toda lá, em todo o seu sofrimento, beleza e repressão. Aquele era o mundo da minha avó, embora ela, diferente de Karin, não tinha qualquer erudição ao tratar do tema. Minha avó vivia o catolicismo sem compreendê-lo, apenas por temê-lo e achá-lo correto, como fazem tantas avós.

Eu, do contrário, só tinha sofrimentos perante o cristianismo, mas amava minha avó com uma força incomensurável. E assim, diante de telas pintadas com sangue e tantas outras com trechos das Escrituras, minha emoção não poderia ser outra do que uma nostalgia doce e dolorida.

“Sem título”, 1999-2000. Terra rosa da região de Caraiva, sul da Bahia, em meio acrílico e carvão sobre lona.

A artista e sua obra

Karin Lambrecht nasceu em Porto Alegre em 1957, e é conhecida pela força com que trabalha a mitologia cristã. Seu trabalho está repleto de palavras, tanto soltas quanto de textos das Escrituras. Seu trabalho é forte e pulsante, com uma riqueza de tons de vermelho, azul e do amarelo em tons de ferrugem.

Esta potência entre o grotesco e o sublime vem desde o início de sua carreira, quando concebia suas obras com resíduos industriais. Depois, vieram as telas rasgadas e o sangue de animais. Sua obra é uma representante perfeita do enlace ao mesmo tempo bárbaro, sublime e místico do cristianismo.

“Animal”, 2004. Sangue de carneiro sobre tecido branco e papel .

Os materiais de suas obras constituem um elemento fortíssimo de sua expressão, ligados à transitoriedade da vida, ao sacrifício e à mística. Além do sangue e dos rasgos, dos tecidos amassados e penduradas e das marcas da indústria, Lambrecht utiliza arames contorcidos de modo agonizante sobre cruzes de papel; permite que o tempo atue sobre suas obras, deixando-as expostas à natureza durante seu processo de criação, em um resultado absolutamente intenso e sublime.

Seu trabalho é uma verdadeira materialização do cristianismo. Se os artistas do passado retrataram as figuras cristãs em uma idealização angelical, Lambrecht mostra-nos o cerne, o coração pulsante de dor e magia da religião.

“Mundu”, 2011-2012. Pigmentos em emulsão acrílica, chuva, marcas de pedras e caligrafias sobre lona.

Para conhecer em profundidade

A obra de Karin tem a profundidade e vastidão oceânicas, e como tal, nos dá uma sensação de nunca poder ser compreendida em totalidade, tão profundos que são seus abismos, seus mistérios, referências e processos. Quando tentamos explicá-la, parece que entramos em um domínio do sentir em que nos faltam palavras e nos resta apenas a intensidade do sentir.

Quem mergulhou fundo no oceano que é a obra de Karin Lambrecht foi Glória Ferreira, que organizou o primeiro e muito rico livro sobre a artista, publicado pela Cosac Naify, trazendo suas pinturas mais importantes, além de colagens e instalações.

O livro é extremamente farto em imagens, todas coloridas. Com formato grande e quase 300 páginas, permite uma apreciação intensa da obra de Lambrecht. Além do farto material gráfico, a obra ainda conta com uma entrevista com a artista feita por Agnaldo Farias, bem como esclarecedores textos de Glória Ferreira, Miguel Chaia e Viviane G. Araújo.

E o livro não para por aí. Seu final é reservado para uma cronologia e uma genial “Fortuna Crítica”, com textos sobre a artista escritos por outros seis estudiosos, fornecendo um mergulho intenso e esclarecedor sobre a oceânica Karin Lambrecht. Estes textos são impressos em tinta bordô, fazendo uma alusão a suas obras em sangue. As separações internas do livro também são em bordô, impresso em páginas inteiras, em um projeto gráfico que se mostra conhecedor da obra, e acaba por unir-se a ela na imersão visual que o livro apresenta.

Karin Lambrecht tem, sem qualquer dúvida, uma das produções mais intensas e ricas em materiais da arte contemporânea brasileira.

Mais obras

“Desmembramento”, 2000. Linha de sangue derradeiro de carneiro sobre lona. 180 x 1.170 cm. Museu de Arte Moderna-RJ / Coleção Gilberto Chateaubriand.



“Meu corpo Inês”, 2005. Registro de ação e instalação.

“Morte d’luz”, 2007. Sobre uma tela (instalada em uma parede de 51 m2, no MAC-USP) coberta de mel de laranjeiras, cultivado pelo setor de Biociência da USP, cerca de três mil folhas de ouro.

“Sem título”, 1999 – 2000. Terra de diferentes regiões do Brasil, pigmentos em meio acrílico sobre lona.

“Dia”, 2005. Feltro sintético, papel, grafite, recortes, linho e cera de abelha.

O livro de Lambrecht pode ser encontrado na Amazon, que possui alguns dos últimos exemplares publicados pela Cosac Naify.